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Imigração em Portugal  - Problemas e consequências

IMIGPORT 3

Tokinfim um disionári di purtugés-kiriolu

O COMENTÁRIO DE PAULO TOMÁS GASTÃO à noticia do expresso com o mesmo título e que pode ser consultada aqui

1) Dizia o grande escritor inglês George Orwell que as realidades óbvias são as mais difíceis de ser vistas, e uma dessas evidências invisíveis é-nos relatada pela presente notícia do insuspeito Expresso: Cabo Verde não é um país lusófono, um país onde a maioria da sua população utilize correntemente no seu quotidiano a língua portuguesa, mas sim um país com uma língua própria - o crioulo -, no qual o português não passa de uma mera ferramenta de conveniência, um instrumento para uso e serviço das elites locais. Esta factualidade, de resto, pode ser constatada por qualquer português, mesmo que nunca tenha estado em Cabo Verde, na condição de ouvir ao acaso uma simples conversa entre dois ou mais imigrantes cabo-verdianos médios, por exemplo, num qualquer transporte público. 

E posto isto, o ponto saliente desta notícia é confirmar a queda por terra de um dos argumentos falaciosos mais insistentemente usado pelo lóbi imigracionista para justificar e privilegiar a admissão de nacionais de Cabo Verde no nosso país em detrimento de indivíduos de outras proveniências geográficas, mormente da Europa de Leste, mesmo que estes últimos constituam um capital humano mais vantajoso e menos problemático para Portugal, argumento esse que consiste em invocar a existência de uma pretensa lusofonia dos cabo-verdianos e a sua afinidade cultural com os portugueses. 

Em face do exposto, parece-nos que haverá urgentemente que repensar o mais que movediço conceito de lusofonia e a verdadeira dimensão da língua portuguesa em África, não deixando que o país se inebrie em quimeras propagadas não só por uma certa esquerda que vê na lusofonia uma forma de impor a ditadura multiculturalista, mas também por uma determinada direita passadista que, em vez de retirar as ilações óbvias do passado histórico recente de Portugal, insiste doentiamente no perpetuar de tal conceito como forma de superar uma mal-disfarçada nostalgia imperial. 

A este propósito, parece-me de toda a utilidade fazer uma citação algo extensa do excelente livro de autoria do ensaísta francês Pierre de Meuse - Essai Sur Les Contradictions De La Droite, Paris, L’Aencre, 2002 - sobre o conceito de francofonia, aplicável ao caso nacional com as devidas adaptações:

 "La francophonie (…) n’est pas la France. Voilà le grand malentendu. 

(…) La langue française est effectivement parlée par des millions des gens principalment en Afrique; mais la grande majorité de ces locuteurs nous sont éloignés par la géographie comme par l’origine et ne peuvent servir à la France pour retrouver son prestige. En réalité, soyez lucide avec vous-même: vous voyez dans cet ensemble fictif un ectoplasme de l’empire perdu, une promesse de fondation d’une communauté où la France jouerait le premier rôle et qui nous redonnerait la puissance, alors que (…) ces peuples ne cherchent dans leur relation avec nous que des prébendes pour leurs dirigeants et des miettes de notre prospérité sous forme de subvention ou de dons sans contrepartie pour leurs économies. 

(…) faut-il pour autant fonder des espoirs déraisonnables sur le rôle de la langue française? Si, par un cataclysme inimaginable, la France était engloutie dans les profondeurs de la terre, et que nous puissions y survivre, irions-nous faire souche au Sénégal ou au Mali, sous prétexte que ces pays parlent français? D’autre parte, n’apparaît il pas évident que la relation de l’ancien colonisateur et du colonisé est biaisée, qu’elle charrie des comportements malsains, faits à la fois d’humilité renversée et de rancunes, pour le colonisé, de culpabilité et de paternalisme pour le colonisateur, qui empoisonnent les rapports que nous pouvons avoir avec les États d’Afrique. Nous n’aurons de véritable politique africaine que le jour où nous aurons tiré un trait sur ces séquelles et accepté une relation dépouillée de ses devoirs et de ses dettes. Le Président Chirac, méconnaisant les droits des créanciers privés et des contribuables français, annule périodiquement la dette du Tiers-Monde. Que n’ annule-t-il pas simultanément la "dette morale " que nous croyons avoir à son égard?" 

2) Não menos preocupante, conforme se extrai da leitura da notícia, é a circunstância de o lançamento deste dicionário de português-crioulo poder vir a ser aproveitado para a promoção do ensino bilingue em Portugal, por intermédio do famigerado Secretariado de Entreculturas do Ministério da Educação, confirmando-se assim o rumor já com alguns anos de que as aulas dos alunos de origem cabo-verdiana iriam ser ministradas em Portugal, no sistema público e oficial de ensino, não em português, mas em crioulo. 

Não podemos aceitar esta pretensão! 

Primeiramente, porque o português é a única língua oficial de Portugal - salvo o caso excepcional, e não relevante, do mirandês no concelho de Miranda do Douro -, e, como tal, é de puro bom senso que as aulas do sistema oficial de ensino, sustentado com os dinheiros públicos arrecadados através dos impostos cobrados aos contribuintes nacionais, sejam leccionadas exclusivamente em português, se queremos perpetuar a nossa própria identidade, ao invés da de terceiros. 

Seguidamente, porque a comunidade imigrante cabo-verdiana, muito especialmente ao nível da segunda geração, dá mostras notórias de falta de integração no tecido social português, a qual se agravará ainda mais se abandonar de vez esse elo mínimo de ligação aos cidadãos nacionais que é o domínio, dentro de limites razoáveis, da língua portuguesa. 

Ultrapassa manifestamente o âmbito deste artigo explicar o porquê dessa falta de integração. Sumariamente, sempre diremos que ela tem origem, desde logo, numa imigração desordenada e descontrolada, em números de tal maneira elevados, que impossibilitam à partida qualquer esforço de absorção sério pela sociedade receptora. Este fenómeno é ainda mais acentuado - como diria o Professor norte-americano Thomas Sowell, da Hoover Institution, da Stanford University, que tem dedicado a sua vida ao estudo destas questões - pelas atitudes e atributos decorrentes de uma evolução cultural distinta da do povo hospedeiro, que não privilegia um forte compromisso com valores essenciais como o trabalho sério, empenhado e esforçado, os laços familiares fortes e estáveis ou o respeito pela ordem pública e propriedade alheia, optando antes por dar preferência ao imediato, pretendendo usufruir os benefícios e vantagens da sociedade hospedeira, mas sem desejar acarretar com os correspondentes esforços e sacrifícios. 

Ora, uma aprendizagem ministrada em crioulo terá efeitos totalmente opostos aos visados pelas luminárias multiculturalistas do Ministério da Educação: aprofundará o fosso cultural existente entre portugueses e cabo-verdianos, inviabilizará de vez as hipóteses, já de si difíceis, de integração dos cabo-verdianos na sociedade portuguesa, enfim, em resultado da repetição das asneiras dos sequazes do multiculturalismo, que nem se preocupam em saber quais os resultados que políticas deste género produziram em países como o Canadá, os E.U.A., a França ou a Suécia,  balcanizará definitivamente a sociedade portuguesa, impedindo a existência de uma verdadeira comunidade - de comum - nacional digna desse nome.

Paulo Tomás Gastão, Novembro de 2002.