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Com Alexandre Dumas, a mestiçagem no Panteão
A França mestiça
Le Monde, 1 Dezembro de 2002
Com vários artigos e um editorial, o diário francês de esquerda deu o devido destaque à entrada dos restos mortais do escritor Alexandre Dumas no Panteão Nacional numa cerimónia com vários convidados e presidida pelo presidente francês Jaques Chirac.
Como lembra um dos artigos, A.Dumas foi um escritor muito popular, tornado-se rico à custa dos folhetins que escrevia para os jornais, alongando as linhas, já que era a unidade de medida do pagamento. Com mais de 600 volumes de escritos diversos, A.Dumas teve que recorrer a colaboradores para redigir, entre outros, os seus mais célebres livros de aventuras, os 3 Mosqueteiros e o Conde de Monte Cristo. E são precisamente estes livros de aventuras que alguns consideram como tendo ajudado a criar uma identidade nacional que reside a explicação oficial para a entrada das suas cinzas no Panteão Nacional ao lado de figuras ilustras da história francesa. Neto de uma escrava negra do Haiti, o pai de Dumas chegou ao porto francês do Havre «sem-documentos» (alusão ao nome dado aos actuais imigrantes em França). O editorial salienta « o símbolo mesmo da mestiçagem da França que, com Alexandre Dumas, é reconhecido no lugar que deve ser o seu : no coração da nossa identidade nacional».
Que não haja confusões, tive muito prazer na minha adolescência em ler “Os três mosqueteiros” ou o “Conde de Monte-Cristo”. Mas nunca, nunca me lembro de ter lido algum elogio à qualidade literária da obra de Alexandre Dumas. Os seus romances eram lidos na adolescência e nunca qualquer das suas obras foi recomendada e ainda menos estudada no sistema de ensino francês. Pelo que me causou algum espanto saber que os seus restos mortais iriam ser depositados no Panteão Nacional. Mais estranhei sabendo que no Panteão Nacional francês só 5, repito cinco escritores ( Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Malraux) foram dignos até agora de aí figurar. Mais perplexo fiquei sabendo que Alexandre Dumas foi designado sem se considerar préviamente outros nomes indiscutíveis da literatura francesa da mesma época, como por exemplo Stendahl ou Balzac, já para não citar Molière, Flaubert ou Proust, os quais, ninguém de bom senso pode ousar sequer comparar a Dumas.
Mas subitamente, este mistério ficou esclarecido com os artigos e o editorial do Le Monde, ao percebermos a razão pela qual Alexandre Dumas se viu postumamente distinguido à condição de figura nacional. Tal decorre do simples facto de o principal mérito deste escritor é o de ter sido ...Mestiço.
Pode parecer estranho que o diário socialista francês Le Monde que tem estado na frente da luta contra o suposto demónio do racismo vigente em França, negando por vezes a existência de raças, venha agora fazer a apologia da mestiçagem. Não é o primeiro nem será o último jornal. Há poucos meses o ”nosso” Público num editorial intitulado “Primavera Caetanista”, fez a apologia de Caetano Veloso, e entre os qualificativos elogiosos atribuídos ao brasileiro aparecia entre “poeta”e “revolucionário” o de “mestiço”. Li várias vezes para ter a certeza que não se tratava de uma gralha. Mas não ! Mestiço é aparentemente uma qualidade inata que não está ao alcance de todos, e que faz de cada Mestiço um ser invulgar, excepcional. Consolei-me com o facto de o editorialista não ter sido inteiramente rigoroso, ao não mencionar o atributo de “bisexual” no tocante Caetano Veloso. Não será uma também uma qualidade ?* Interroguei-me se porventura algum dia o Público vier a fazer o elogio de João Gilberto, será que poderá alguma vez ousar escrever algo do género : “pai da bossa nova, branco, músico genial que tornou o Brasil musicalmente respeitado” , deixo-vos a resposta.
Voltando ao novo herói francês, Alexandre Dumas era efectivamente neto de uma escrava negra, embora ao referir-se ao seu pai nas suas memórias “Mes Mémoires” dissesse a propósito do nariz paternal que representava a mistura das influências caucasianas e indianas. Tinha certamente o direito de omitir que o seu pai era filho de um branco e de uma negra, pelo contrário a mentira revelou o seu verdadeiro carácter. Talvez sejam estas as qualidades republicanas do homenageado a que o presidente francês J.Chirac fez referência. Mas A. Dumas que morreu em 1872, não tem culpa das honrarias imerecidas; ele é mero instrumento, por força da sua mestiçagem, de interesses políticos contemporâneos.
A mestiçagem aparece assim para as elites de Esquerda como a referência por excelência, ao elevar o Mestiço à condição de paradigma do Homem, do novo Homem. Aquele ser por essência destituído de identidade, necessariamente multiculturalista avant-la-lettre senão em substância em todo o caso seguramente pela forma, pela aparência.
Depois da celebração politico-mediática dos anos 80 e 90 com a comunhão inter-racial à la Benetton temos agora a fase suprema, supostamente a da fusão das raças que daria origem à não-raça . Só que a generalização da suposta não-raça, o Mestiço, conduz necessariamente a uma nova raça. O Mestiço ao contrário dos híbridos inférteis, não depende mais de outras raças para procriar, para se multiplicar, é um cruzamento que à nascença, ab initio, adquire logo a sua autonomia. A sua generalização, decorrente de ser erigido como modelo universal, daria lugar ao Homem perfeito, um ser superior. Porque conteria em si algo indizível para os nossos anti-racistas primários, a virilidade do Negro (de que o Branco entretanto foi destituído) e as qualidades intelectuais do Branco, em suma a junção da força com o intelecto. Um frankenstein politicamente correcto.
O Mestiço teria ainda por desígnio concretizar o supremo mito político-religioso da igualdade entre os homens, porque todos os homens passariam necessariamente a ser fisicamente iguais e todos os homens passariam a ser necessariamente filhos do mesmo Pai. E haverá melhor forma de expiarmos as nossas sempre eternas culpas de Homem Branco do que desaparecermos enquanto raça hedionda da face da terra ?
Não deixa de ser curioso que afinal a raça pareça ser um dado incontornável mesmo para aqueles que apregoam a sua não-existência. Esta obsessão racial, de criação de um mito do novo Homem, agora corporizado no Mestiço, lembra paradoxalmente a de um outro mito racial, que, se é certo que não tinha por vocação ser universal, não deixou no entanto de conduzir à barbárie. Será que a História se repete e os Judeus de ontem serão os Brancos de amanhã ?
*em boa verdade, Gilberto Freyre foi o pai intelectual do Mestiço enquanto o ser brasileiro por excelência.
J. Medeiros
Equipa Imigport 2003